quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Harry Potter e as Relíquias da Morte - parte I



Resenha por Lola Pop (vulgo Selune Priout) e Lucita Sibila


“Não se deve ir com muita sede ao pote”, já diriam nossas avós.

Por exemplo, chocolate quente: um chocolate quente é um regalo para a alma nesses dias frios e chuvosos. Mas há que ser cauteloso: nunca, em hipótese alguma (salvo em casos de prazeres masoquistas inconfessos) deve-se tomar um copo de 500mlde um líquido escaldante com a avidez ou ansiedade. Além de não apreciar devidamente as nuances de sabor, corre-se o risco de sapecar a língua e comprometer o restante da degustação.

Mas estamos divagando, porque isso deveria ser uma resenha sobre a primeira parte do epílogo da saga de Harry Potter - ainda que escrita à quatro mãos por duas pessoas com déficit de atenção e hiperatividade que consomem mais componentes nerds/gueeks na dieta cerebral que o recomendado pelos acadêmicos de plantão.

Ora, caro leitor, mas é justamente do “epílogoépico” da mais bem sucedida história fantástica dos últimos treze anos que estamos falando e, em se tratando das expectativas dos fãs e dos cinéfilos ocasionais, é preciso que duas coisas estejam bem claras.

Primeiramente, este é o Harry Potter 7.1, o que significa que é apenas primeira parte do enredo do sétimo livro, cujo “epílogo-epílogo” será lançado em julho de 2011. E você se pergunta: “porquê isso, Lola, é para fazer mais dinheiro?”

Bem, dado ao conteúdo do sétimo livro, e tendo em vista a afirmação de um dos produtores do filme, David Barron, de que não existiam muitas cenas que pudessem ser cortadas no filme justamente por se tratar de um livro que resolve conflitos, concluímos que sim, é para fazer mais dinheiro. E também para contentar aos fãs que gostam de uma adaptação exaustivamente fiel ao livro.

Claro que uma ou outra ponta se amarra nessa sequência - aliás, se for contar deve dar exatamente essa soma - mas, de modo geral, o filme é repleto de dilemas não resolvidos, questões sem repostas e angústias que permanecerão em suspenso até a próxima sessão (terapêutica) de película inédita. (Passe o mouse para ler uma opinião spoiller de ambas pessoas envolvidas nessa resenha): Talvez algumas angústias ficarão para sempre em estado gravitacional nulo - orbitando ao redor de sua cabeça, como aconteceu conosco. Ou pode ser que você tenha a sorte de ser menos DDA e mais normal… Vai saber…

Nesse ponto, chegamos ao segundo fator a ser considerado ao assistir HP 7/1: é um filme ambientado em tempos insanos e de meandros políticos delicados, e isto fica claro logo na cena de abertura do filme, onde o Ministro da Magia faz um discurso em plano fechado, margeado por uma multidão de repórteres que dispara flashes inclementes contra seus dizeres.

A guerra é uma realidade sombria e sangrenta, onde pessoas desaparecem, famílias são destruídas e todos andam nas ruas com medo e desconfiança.Aresobscuros, um tanto como um sonho ruim, um tanto suspense psicológico com apelos altamente realistas permeiam toda a película, o que a distancia anos-luz do dèbut cinematográficocom tom saltitante de descoberta - por falta de palavra que melhor o descreva -orquestrado por Chris Columbus (“A Pedra Filosofal (2001)” e “A Câmara Secreta (2002)”).

Numa clara metáfora ao processo de crescer - para ser ainda mais clichê de resenha cinematográfica, ‘o início do fim do mito do herói‘ - Harry se vê confrontado com o peso de ser “o Menino que Sobreviveu” de uma maneira irrevogável e intransferível. Mas antes de caminhar rumo seu destino final - confrontar aquele-que-não-deve-ser-nomeado-Potter (Daniel Radcliffe), sempre ladeado por Ron (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson), precisa procurar e destruir todas as Horcruxes, objetos que contém partes da alma de Voldemort (Ralph Fiennes) e que seriam a garantia da imortalidade e poder do Lord das Trevas, antes queo próprio consiga terminar o serviço que ficou pendente há 17 anos (caso alguém esteja se perguntando, sim, esse serviço é mandar Harry para junto de seus pais. Do outro lado da vida. Além do véu. No mundo da magia pura e quintessenciada. Ok, paramos. Desculpe a digressão.).

Eles agora estão sozinhos, sem o auxílio de mentores, a proteção das paredes de Hogwarts ou a presença acalentadora de Dumbledore. O trio depende tão somente de si mesmo num mundo dolorosamente similar à Alemanha Nazista, onde em nome de uma raça bruxa imaculada, cada membro ou simpatizante do “exército das Trevas” “caça” os nascidos trouxas e aqueles que os defendem, monitorando meios-sangues e julgando dentro de parâmetros absolutamente duvidosos a pureza mágica de um indivíduo. A semelhança com a ação anti-semita dos partidários de Hitler não é mera coincidência - é, segundo a própria J.K. Rowling, proposital. Qualquer um pode ser um inimigo disfarçado (clichês de resenhas, o retorno…), porque todos usam dos meios que podem para sobreviver - se escondendo como os meio-sangues ou nascidos trouxas, ou entregando fugitivos como os sequestradores - uma espécie mais descarada e menos engomandinha de agentes da SS( Schutzstaffel ou “Tropa de Proteção”) e Gestapo (acrônimo de GeheimeStaatspolizei, “polícia secreta do Estado”) nazistas.

Todo o filme é retratado em cores escuras, que variam em paletas de azul, um verde escuro quase musgoso, permeadas por escalas de cinza, porque essa sensação de solidão e desolamento não poderia ter outro modo de ser retratada com eficácia estética - já vimos essa estratégia ser usada no lindíssimo “Prisioneiro de Azkaban (2004)” de Alfonso Cuarón, e em “A Ordem da Phoenix (2007)” e “O Enigma do Príncipe (2009)” do mesmo David Yates que dirige as duas partes finais da franquia.

A câmera mostra planos abertos,onde os três bruxos figuramdiminutos em meio à amplitude de florestas, desfiladeiros, campos nevados, evidenciando seu desamparo, cansaço e o peso que a tarefa que herdaram de Dumbledore tem sobre seus ombros. Em outras cenas, existem closes como se não importasse a retidão e de ângulos de exposição, trazendo o expectador para perto dos personagens de modo quase sufocante - Yates parece querer que nós sintamos o que eles sentem, vejamos os poros de seus rostos de olheiras e barbas mal feitas e acompanhemos seus pés trôpegos nas fugas alucinantes filmadas com a câmera na mão. Isto culmina em momentos de terror e intensidade psicológica, acentuadas pela escolha de um ritmo desacelerado, com muitas passagens de absoluto silêncio e tomadas que dão a sensação de preenchimento forçado de tempo - vulgo: encheção de linguiça - mas que tem um propósito. Nesse aspecto, o filme se aproxima como nunca do que é descritono livro (há, por exemplo, uma sequência de mais ou menos dez segundos mostrando a tenda de acampamento dos jovens no meio do nada, sem diálogos ou o que o valha,que tem na tela o mesmo efeito literário de uma descrição de uma página sobre a cor, a textura, a posição das varetas de sustentação e as dobrinhas da mesma. Já mencionamos que a Rowling é produtora do filme? Ah… fez sentido, hein?).

Lucita e eu confessamos que as duas obras (cinematográfica e literária) nos provocaram sentimentos muito parecidos: em dado momento começamos a perceber que existe uma cadeira debaixo do corpo, pessoas povoando a sala e que o cinema está muito, muito frio.

No entanto, em meio a tudo isso,existem aqui e alimomentos de delicadeza e alívio, como a cena de dança entre Harry e Hermione (que eu, Lola, achei uma graça e LucitaSibila achou de um teor vergonha alheia vermelho pimentão - é que Daniel não é exatamente um pé de valsa desenvolto) que funciona como um momento breve de respiro para os fatigados jovens - e para nós, espectadores.

A fortaleza que a amizade dos três jovens ergue em volta deles é tocante e está mais convincente e real,em parte pela própria história de mais de dez anos convivência dos atores.Não se trata mais de é uma relação de pura mágica, pelo contrário: é demasiadamente humana em suas brigas estúpidas, decepções motivadas por ciúmes e horas de desespero no mais profundo estilo “Stelaaaaaaaaaaa!” (se perdeu a referência, consulte: BRANDO, Marlon in WILLIAMS, Tennessee - Um bonde chamado desejo. O filme, ok. Fica a dica). Um desses momentos, inclusive, rende uma cena digamos pouco ortodoxaem termos de sex appeal, bem distante do que estão acostumados os olhos daquelesque cresceram lendo as linhas meio puritanas de J.K. Plasticamente, porém, é bem bonita e intensa, há de se convir.

Além disso, o recurso usado para a apresentação das relíquias da Morte - algo um tanto Dave McKean, um tanto Tim Burton em tons amarelos de luz e sombra - é de uma beleza poética, digna de um bardo contador de histórias.

Diante disso tudo, podemos afirmar que os mesmos pontos que podem provocar um certo incômodo (ou sono) nos espectadores que não são iniciados na sérieserão, certamente, os motivos que vão garantir um desfile de críticas positivas ao longa na terra dos críticos de cinema profissionaisTM e dos fãs mais puristas.

Numa perspectiva que não acreditamos ser muito fora da realidade, é possível mesmo que vejamos o epílogo duplo da série concorrendo (e quiçá ganhando) Oscars de melhor do ano.

Afinal, todo mundo sabe: filmesde guerra que envolvem nazistas e judeus - ainda que como referência histórica(assumida pela autora da série, diga-se de passagem) - são garantia certeira de uma prateleira de estatuazinhas douradas…

Avaliação:Ótimo

Ficha técnica:

Harry Potter e As Relíquiasda Morte - Parte 1 (Harry Potter and The Deathly Hallows - Part1). Reino Unido/EUA, 2010. Direção: David Yates. Com Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Helena Boham Carter, Ralph Fiennes, Tom Felton, Bonnie Wright. Cor, 146 min.

Site oficial: http://harrypotter.warnerbros.com/harrypotterandthedeathlyhallows/mainsite/index.html
Site oficial (Brasil): http://harrypotter.pt.warnerbros.com/hp7a/
Site IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0926084/

***

P.S’s Necessários a este texto de estréia:

Não há cenas extras após os longos e (também) lentos créditos. Não precisa esperar.

Sim, passou pela nossa cabeça usar o nome “O Começo do Fim” como título. O surto Folha/Época/Veja foi reduzido a uma rápida menção em meio ao texto, graças à Merlin!

Cabe aqui um pequeno disclaimer (um nomezinho importado que é usado àguiza de “já estava assim quando eu cheguei” ou “não me culpem pelo devir”):Somos somente seres humanos demasiadamente humanos, e não críticos de cinema TM. Portanto, esperamos docemente que você beba devagar e com moderação. E se beber quente, não dirija (comentários desaforados para nós que somos só os mensageiros… e avisamos)

Arme-se com seu saco de pipocas e despretensiosamente curta a joyride - ou não, porque a vida é sua, afinal. Fez sentido?


Texto Originalmente publicado no site Abacaxi Atômico - que é bem legal e vocês deveriam conhecer!

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